sábado

Constantemente eu imagino meu passado de uma forma diferente. Com escolhas diferentes, em lugares diferentes. Imagino como teria sido sem tudo o que me aconteceu de bom ou ruim. Por pouco tempo que eu tenha de vida, nunca se sabe se muitos virão. Não me arrependo de ter caído uma vez, mas me arrependo de ter me derrubado. De ter tirado de mim algo que me faz falta até hoje. Mas o que eu sei... Eu só penso em querer voltar, mas não seria o correto, e se fiz, foi porque tinha que ter feito. Dizem que o mundo dá voltas, e que um dia aquilo volta pra sua vida. Mas da minha saiu com o meu primeiro passo, e aos poucos foi se desfazendo. Por medo, angustia, erroneamente, imaturidade. Hoje é como se eu passeasse por um beco, todos os dias e todas as noites. Às vezes me aparecia um sinal de vida, mas depois ele sumia por ser falso e imaginário. Por eu ter criado dentro de mim e ter deixado isso me consumir. É como se o sol não entrasse mais pelos pontos abertos, é como se o tivesse levado. E eu nunca pude dizer a verdadeira razão, eu menti. Eu falsamente escolhi esse caminho, eu não escolhi. Não tive opção. Nunca vou conseguir te dizer a verdade sobre nós, sobre mim. Porque sou fraca a ponto de me deixar levar pela escolha de outra pessoa, a ponto de me derrubar para não magoar outros. Sou forte ao ponto de te deixar partir e não dizer nada além de tudo bem. Nunca tive esperança, nem sequer sorrisos verdadeiros após. Ganhei um coração fechado, frio e inalcançável para qualquer um. Eu penso que consigo, mas quando menos espero tudo cai novamente, e eu volto ao início. As luzes que as vezes aparecem por aqui, são pequenas ao tamanho da fonte que me proporcionava. Eu sempre vou voltar a esse lugar, eu sempre vou estar aqui parada, o mundo pode mudar e eu estarei aqui. Porque não posso me desviar e porque não quero. Não quero largar de mão e não quero perder. Porque sou fraca e forte, e ainda sinto o mesmo cheiro. Porque ainda ouço as mesmas músicas e uso a mesma blusa quando sinto que vou secar novamente. Porque sou uma flor em eterna decomposição, perdida, e nunca mais sua. Mas o que eu sei... Você está tão distante e tão perto. Você está tão feliz. Eu nunca vou saber o que você pensou ou que você quis fazer para impedir. Eu nunca mais vou ouvir você dizer, eu nunca mais vou sentir. As paredes nunca vão cair e nunca vão acabar aqui, continuo seguindo, à noite é escuro demais, e ao dia é como se não houvesse cores. Ouvi um pequeno rádio chiar seu nome baixinho, com uma nova melodia. Sempre melhorando, cada vez mais apaixonado, mas a parede não deixava os ruídos passarem. Não ouvi mais, abaixei minha cabeça e tornei a andar. Não tenho contato sequer com algum anjo que possa imitar o tom da sua voz. Caí, quando me lembrei da música que diz que um dia iria eu voltar com luz nos olhos. e eu não voltei, e eu deixei passar, e eu continuei andando. Por mais uns anos eu devo estar diferente, eu devo estar em outro lugar. Mais quantos anos serão necessários? Quantos? Eu verei você chegar ao altar? Eu verei seus filhos por fotos? Eu estarei reagindo como à isso? Estaria feliz também, longe daqui? Olhando apenas seus cabelos pretos começarem a embranquecer? Ou será menos? Estará ela linda como sempre, ou será outra? Mas o que eu sei... Eu comprei um lençol vermelho desbotado como aquele da foto. Comprei aquele perfume que tanto gostava, e deixei meu cabelo crescer novamente. Ainda ouço a mesma música, ainda faço algumas músicas. Ainda uso aquela palheta. Tirei umas fotografias na Inglaterra, num quarto de Hotel, me lembrei. Às vezes bebo chocolate gelado, e vejo aquele filme. Comprei um gatinho e tirei uma linda foto dele. Ganhei um quadro de fotografias, imprimi algumas suas e pendurei na minha sala. Lembrei dos carinhos, e seu preferido, nas pernas. Lembrei e esqueci. Estou morando no segundo andar, tem uma escada por perto. Eu lembrei e esqueci. Me peguei sentada na escada, escrevendo num caderno, com uma letra estranha, que não era minha. Também desenhei uma figura engraçada, como aquela que fez na minha agenda em Novembro de algum ano que já passou. E também comprei a coleção daquela banda, que nos deu uma trilha sonora. Acho que éramos mesmo iguais, lembrei e esqueci.
Mas o que eu sei... Eu sei que hoje sou outra pessoa, e que escrevo isso no ápice da nostalgia, das poucas lembranças, sentada na varanda com um vento fraco. E o que me diz? Quando disse, 'minha pra você'... e você voltará com o sol em seus olhos. Eu não voltei, e você também não. Foram significantes naquela época e deixaram de ser, para virar lembranças, vagas lembranças de um sonho bom.


E Laura nesse dia passeou pela tarde de inverno na Lake St, olhando seu futuro lar, longe de todo seu passado. Escreveu esse texto andando por lá, num caderno pequeno, e na capa tinha uma antiga foto. Seria ele seu diário, sua vida escrita? Ela não quis dizer mais nada, saiu da sala e pagou sua consulta.
Clínica de Psicologia e Reabilitação. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário